Dentes e outros podres
Esse título está na minha mente há anos. É para um livro de contos. Um dos contos se chamará "Hígido" e é nele que se encontrará a ideia do título.
Agora escrevia numa rede sobre a alegria imensa que senti vendo a minha dentista (não minha, mas que me atende), sendo uma das intérpretes do samba-enredo de uma das escolas de samba aqui da cidade que moro. Minha dentista (não minha, mas que me atende) é mais importante para minha saúde mental que a psicóloga. Na primeira vez que entrei no seu consultório falei sobre minhas dores e traumas, sobre meus dentes e outros podres e ela me acolheu e ressignificou uma parada muito, muito, muito traumática.
Eu tinha uns seis anos e recém tinha entrado na escola, tudo era novo. A escola foi um ambiente muito controverso, mas aos seus anos era um lugar que eu amava. Uma vez os dentistas que atendiam na escola foram até a minha casa e lá eles olharam nossas bocas. Nossas: minha e de minha irmã. Após muitas anotações e numerações que localizam os dentinhos de leite na boca de uma criança, ainda sem medos de dentista, foi a vez da minha irmã e foi com seis anos que ouvi pela primeira e última vez a palavra h-i-g-i-d-o. Uma palavra nova e estranha e que eu não tinha escutado na minha vez.
A cada hígido os dentistas sorriam mais e mostravam os próprios dentes (não sei se de fato isso aconteceu ou se eles estavam usando máscaras. É provável que não tenha acontecido como a minha mente lembra). Eu não consigo sentir vergonha da inveja terrível que senti, pela atenção que ela recebia e pelos afagos que os dentistas que estavam lá por minha causa ficando felizes por ver que nem toda boca daquela casa estava perdida. Como a minha.
Tem camadas e camadas de fracassos públicos que refletiram no âmbito privado da minha boca e pra mim o amor e o cuidado que uma criança deve receber, passa pelos dentes saudáveis. Esse é o texto mais triste e confessional que já me permiti publicar.
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Sorri cantando um samba na avenida depois de anos pela primeira vez.
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