Alzheimer

Domingo último levei a mãe para passear no shopping. Era seu aniversário de 68 anos. Antes de maiores julgamentos de porque um shopping, sobretudo se você não convive com pessoas com alzheimer, informo que é porque tem variadas comidas, pessoas e principalmente porque qualquer direção que a gente passeie o banheiro esteja a poucos metros.

Estávamos de mãos dadas.

Eventualmente a mãe se perguntava onde eu estava, mesmo eu estando ali, na continuação da sua mão. Quando pensei em contar a outras pessoas sobre essa sensação de confusão e vazio imenso que dá, lembrei de uma circunstância que já me ocorreu, de procurar um óculos que está no rosto ou usar a própria lanterna do celular para procurar o celular que está na mão, essas pequenas confusões que acontecem com todo mundo. Acontecem com todo mundo?

Foi justamente imaginando que ao contar isso alguém me dissesse que isso jamais lhe aconteceu que acessei um vazio de novo. 

O alzheimer chegou na minha família há pelo menos uma década. Um dia meu pai, que pouco falava sobre qualquer coisa me disse que foi diagnosticado com potencial, digamos assim, a desenvolver o tal. Neste dia ele me confidenciou algo que me matou um pouco: se eu perceber que isso está acontecendo, eu me m* antes. Sim, minha família pouco falava de seus flagelos, mas quando falava me fazia guardiã das piores dores e angústias da humanidade. Sigo em silêncio sobre isso há anos e agora desabafo nesse blog que ninguém lê, mas um dia alguém lerá. No entanto os anos foram passando e tantos outros males assolaram o meu pai que o que o levou não foi o alzheimer, nem a doença de chagas, nem a COVID mas um câncer, doença essa que levou outros tantos familiares na pandemia. 

Em 2019 a mãe começou a dar sinais mais evidentes e foi em meio ao meu TCC e que ela veio morar conosco. Detalhe, com um pé quebrado, que quebrou justamente no dia que ela iria na primeira consulta do neurologista...

Ter familiar com alzheimer, embora o fator genético seja o menor risco, nos deixa sempre numa apreensão. Uma hora eu só vou lembrar de lá e esse lá tenho pra mim que é agora. E por isso tantas vezes vivo no delírio, na imaginação, no destempero, no auge, delusional ou delulu como dizem os genZ. Se um dia eu só me lembrar de hoje, que o hoje pareça delicioso. Que mentira que eu me invento, espero que o meu eu do futuro (que eu tenha futuro) seja bem bobão. 




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