Ouvindo Poema, na voz do Nei
Soube nos fumódromos da internet esta semana que duas mulheres, mãe e filha, estão vivendo em um MC Donalds no Leblon. Pelos boatos as duas apesar de vulneráveis não foram chutadas porta fora, pelo contrário, são elas as pessoas que ameaçam com processo de importunacão. Em alguns lugares dizia que elas vivem nessa situação há 3 meses e outros lugares que há dois anos. Cogitei ser performance ART, mas daquelas que somente pessoas brancas podem fazer pois por muito menos pessoas racializadas são, bem, vocês sabem o quê...
Há dois dias em Porto Alegre aconteceu um incêndio em uma pousada que está em um bairro central, cercado dos mais variados tipos de vulnerabilidades. Nesta pousada, que tinha um convênio com a prefeitura (mas não um PPCI, incrivelmente) dormiam pessoas que eram assistidas pela FASC, trabalhadores da coleta, prostitutas e quem mais pudesse dispor de 550 reais mensais por um teto/mês.
Trabalho em uma rede de bibliotecas de uma instituição com vocação social ou seja, todo o acesso aos livros e aos espaços é gratuito. Bibliotecas são lugares onde pessoas que não tem um teto todo seu passam o dia. Na biblioteca minimamente as pessoas acessam um lugar para descansar, distrair, informar e literalmente, insisto, passar o dia. No entanto, quanto a noite chega, muitos deles vão para essas pousadas, albergues ou mesmo para a marquise mais próxima (nem sempre tão próxima, pois também preservam ainda o direito ao seu orgulho). Quando soubemos do incêndio e das dez vítimas fatais, além dos outros feridos, um pensamento começou a nos perturbar na biblioteca... De um cliente em particular, uma colega tinha o telefone e após algumas insistência, soubemos que este estava bem. Passadas mais de 24h desta tragédia anunciada não há uma lista das possíveis vítimas. Será que não há quem as procure ou são vidas que menos interessa? Ontem na coletiva de imprensa impediram os repórteres do Boca de Rua de participar. Por quê? Sabemos o porquê.
Minhas palavras aqui não são conclusivas porque não tenho conhecimento para análise profunda, só me sinto afetada mesmo, triste, muito triste. Apreensiva. E mesmo depois de ver os nomes das vítimas, mesmo sem conhecer qualquer pessoa nela, ainda assim não haverá alívio, porque a sensação é que as nossas vidas valem tão pouco...
Sobre as mulheres do Leblon li que pesa sobre elas um processo de injúria racial. E que são gaúchas. Não afirmo nem nego nada, como disse, foi assunto de fumódromo da internet e aqui quem tem polegar, polegariza.
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Meus sentimentos a todos familiares das vítimas e minhas orações a todos vitimados que não tem ninguém a sua procura, para que suas almas descansem.
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