Sobre esse dia de chuva

Na última quimioterapia eu acompanhei meu pai e ouvi da médica que estava tudo bem, que os resultados obtidos eram os esperados, mas que por garantia ela ia solicitar algumas sessões de rádio porque o câncer que ele teve poderia migrar para cabeça. 

Meus pais me fizeram adultecer muito cedo. Não sei se adultecer, mas lidar com assuntos reais, palpáveis e nada fácil. Quando passei para a quarta série (hoje o terceiro ano), já tinha mais escolaridade que eles, então, já 'entendia de papéis'. Depois da separação, meu pai muitas vezes desabafou comigo e dizia que eu tinha uma cabeça boa para aconselhar. A vaidade me prendeu em um lugar que genuinamente nunca quis estar. 
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Como essa última consulta do pai era importante eu gravei para partilhar com a esposa dele e minha irmã, para todo mundo saber dos próximos passos, porque o pai poderia esquecer. 
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Hoje, nessa chuva que está devastando o estado, após ter enviado mensagem para gerente avisando que não vou ao meu emprego porque não quero arriscar não conseguir voltar, lembrei deste áudio. Acredito que nem haja a voz do pai, só da médica e das minhas perguntas. 
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Um pensamento que tenho desde sempre, depois de ver tantos filmes de fim do mundo e apocalipse zumbi é o de que eu não lutaria por mim. Diante da ameaça, não deixaria para ser abatida depois de perder o fôlego correndo, até porque se minha salvação depender de corrida, meu deus, estou perdida, mas estou lutando para mudar esse hábito. Estou na fase da vida que começamos a correr, mas fosse um apocalipse zumbi, não desperdiçaria o tempo do zumbi e nem o meu, me entregaria. Sempre pensei que assim seria. Mas tenho olhado para a nossa sociedade capitalista com esse olhar, de que o apocalipse já está acontecendo... E eu sou um zumbi, tentando não engolir o meu próprio cérebro. Pensando só na última década como brasileira, tivemos uma virada política de perda de direitos absurda, uma ascenção neopentecostal em espaços que deveriam ser laicos, pandemia da COVID-19, ciclones, dengue, volta da COVID... Se viver assim não é correr enquanto o mundo explode nas nossas costas, então não sei o que. Nem quero saber. Uma certeza é que tudo pode ser pior.
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Após essa consulta em que o prognóstico foi positivo, fui para a rodoviária com o pai e tomamos um café, numa cafeteria bem bonitinha, escondida, que nem sei se ainda existe. O pai, que já não tinha apetite algum, nesse dia tomou um café com leite. A última refeição que fizemos juntos. A radioterapia destruiu ele aos poucos. 
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