Mãe, tenho tanto receio que o remédio que te cura seja o mesmo que te adoece. Que o remédio que te trás, seja o que te leve, cordialmente, ao esquecimento de nós. Quero te evitar a dor mas não deixo de sentir. Estou fazendo o que posso por mim para nunca te culpar daquilo que não fiz, me responsabilizo pela minha vida e minha felicidade e me desvinculo do mesmo contigo, tentando garantir o teu bem estar. Como é difícil, emocionalmente difícil. Como dá vergonha falar sobre todos os sentimentos envolvidos num país como o nosso, que não discutimos em tempo hábil questões fundamentais de vida-morte e velhice e de repente temos que tomar decisões.
Há dez ou mais anos atrás meu pai disse que tinha sido detectado um sinal sutil de alzheimer em si e que se ele percebesse a doença de fato tomando conta que encerraria sua trajetória na terra. Ele me confidenciou isso e jamais contei a ninguém, me reconto isso muitas vezes em pensamento porque acho uma sacanagem ser portadora deste e de tantos outros 'segredos' terríveis de pessoas amadas. Meu pai morreu em 2022 sabendo quem era e quem éramos, o alzheimer nele de fato nunca chegou a ser o fator determinante de seu mal estar, porém aquele fantasma me acompanhou cada dia e mais presente ainda quando a mãe manifestou claros sinais, mesmo antes do diagnóstico.
Aqui é onde eu falei pela primeira vez disso. Leiam e esqueçam.
Comentários
Postar um comentário